Adalberto Mansur

Barbosa e o tempo

In Causos da comunicação on 13/06/2014 at 11:52 AM

Essa é uma crônica sobre o tempo. E sobre um personagem.

Há dias queria escrever sobre a Copa. Nem a favor, nem contra. Mas sim sobre uma figura que não estará em campo, mas que surge na memória coletiva do brasileiro toda vez que falamos de Copa jogada em campos do Brasil: o saudoso goleiro Barbosa.

Confesso que nunca vi Barbosa atuar, a não ser aquelas imagens da tragédia do Maracanã em 1950. Pouco importa: também não vi Didi jogar, mas soube que era um craque.

Importa sim a história humana.

A foto ao lado de Barbosa, em janeiro de 2000: três meses depois, ele morreria

A foto ao lado de Barbosa, em janeiro de 2000: três meses depois, ele morreria

Mas quem diz o que conta e o que não conta na trajetória de um profissional?
Barbosa foi um dos poucos goleiros negros de destaque no Brasil. Integrou um elenco do Vasco da Gama conhecido como “Expresso da Vitória”, que conquistou títulos nacionais e continentais.

Pois seu destino era constar na lista dos injustiçados na narrativa oficial, geralmente contada pelos vencedores.  Roberto Muylaert relatou o drama em “Barbosa, um gol silencia o Brasil”, livro relançado no ano passado.

Hoje já se levantam vozes em favor de uma seleção, e principalmente de um goleiro, que começou a construir a grife “Brasil” no futebol  internacional. Documentário na GloboNews e uma estátua em Santos tentam diminuir o pesado fardo dos jogadores de 50.

Seguem a linha pregada por Armando Nogueira, jornalista renomado, que um dia escreveu: “Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera”.

Janeiro de 2000. O Brasil iniciava o ano no qual tocaria na ferida do Maracanazzo. Estava em Praia Grande, e soube que Barbosa frequentava uma banca de jornais. Fui até lá uma, duas vezes. Até que encontrei ele. Tímido, topou tirar uma foto comigo. Entusiasmado com aquele personagem, nem me toquei que estava sem camisa.

Relatei o encontro em primeira pessoa num texto no Jornal de Limeira. Na saída, dei a ele um boné da Inter de Limeira que levava comigo. Uma pequena lembrança, que despertou nele outras lembranças – Moacir Barbosa Nascimento era natural de Campinas. Em abril, dois meses antes de a tragédia do Maracanã completar 50 anos, Barbosa morria.

Agora, os atuais atletas brasileiros podem ajudar a reescrever a história. Homenageá-lo com o título mundial ? Não sei. Semana passada vi uma reportagem da TV Globo mostrando que 1950 virou um fantasma também para os vencedores. Toda vez que uma seleção uruguaia embarca para uma Copa leva na bagagem o peso de se igualar àquela formação que deu ao país vizinho seu último título mundial.

Talvez os jogadores, ou ao menos um dos goleiros de Felipão, vestindo a camisa número 1 da seleção com o sobrenome “Barbosa” nas costas. Mudaria o que já passou? Impossível. Mas ajudaria a escrever o que virá.

 

 

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